Blog do escritor Ferréz

Matéria sobre minha caminhada.

Reginaldo Ferreira da Silva, 39 anos, mora no Capão Redondo, zona sul de São Paulo, região marcada pela violência. Filho da mineira Maria Luiza e do baiano Raimundo, ele precisou virar gente grande ainda menino. Era necessário trabalhar para ajudar a colocar o que comer dentro de casa, principalmente depois que mãe e pai se separaram. 
O menino gostava de escrever versos, e atrás do balcão da padaria chegava a esquecer da fila que se formava esperando o pão quentinho. Descobriu a literatura e, à certa altura, decretou: vou ser leitor pro resto da vida. Aos 39 anos, Reginaldo é Ferréz , um dos grandes nomes da literatura marginal, com obras publicadas em vários países, que roda o Brasil e o exterior participando de eventos literários. 
Mas seu mundo é mesmo o Capão. É lá que ele tem um projeto social que muda a vida de inúmeras crianças, é lá que mantém uma marca de roupa, que constituiu família junto com a artista plástica Elaine, e cria a filha, Dana. O escritor, que acaba de lançar um livro de contos, "Os Ricos Também Morrem" (Editora Planeta), conversou com o Diário, por telefone. 
 
Diário da Região - Seu novo livro, "Os Ricos Também Morrem", é uma coletânea de contos. Como foi o processo de escrita?
Ferréz - Os contos foram escritos dentro de três anos. Alguns eu escrevi e guardei. Alguns eu ia lendo nos eventos, ia consertando, ia mostrando para as pessoas, vendo o resultado deles nas ruas, para depois deixar eles definitivos assim. Teve muitos contos que foram andando em vários saraus, várias palestras, até chegar a ficar do jeito que eu queria mesmo. Os personagens, alguns são inspirações, que eu mudei o nome, ou que tem um nome próximo. 
Outros são inventados. Nem eu mais sei dizer o que é ficção, o que é verdade, meio que misturou na minha cabeça. Mas tem muita ficção e muita realidade. Dá pra sentir a realidade quando você lê o conto, sabe. A oralidade que traz o livro, dá pra sentir. Eu queria fazer um livro que o leitor ouvisse o personagem falando com ela, sabe?
 
Diário - Os contos também são ilustrados. Como surgiu a ideia?
Ferréz - Junto com a editora, a gente pensou numa coisa que atraísse também o jovem, né, com tanta mídia competindo com a literatura. Então, a gente pensou nos desenhos do Alexandre de Maio, que é um cara moderno, que tá aí publicando muita coisa na internet, a gente pensou num cara assim, descolado. 
É um cara que sempre trabalhou com a questão da periferia, ele editava uma revista chamada Rap Brasil, que era só de hip hop. Também é um cara militante, que trabalhou na Fundação Casa, num monte de projeto bacana, é bem o perfil que eu quero no livro. 
 
Diário - Como a literatura entrou na sua vida?
Ferréz - A literatura sempre foi um acidente desde o começo. Foi um acidente que depois eu fui juntando as peças. Depois que eu fui entendendo que ela já tinha entrado na minha vida fazia um tempo. Eu assistia um filme, gostava dele, anotava o nome, esperava passar de novo na televisão depois de um ano, e depois fui entender que era um livro que tinha a ver com um escritor, que era o Bar Fly, baseado na obra do Bukowski. 
Mas o primeiro livro que eu li na minha vida foi um Hermann Hesse, "Demian". Eu tinha uns 12 para 13 anos, e realmente quando eu li esse livro deu uma mudada na minha cabeça. Até então eu só lia quadrinhos, continuo lendo quadrinhos até hoje, mas esse primeiro livro me impactou. 
E logo em seguida eu li "Madame Bovary", do Flaubert, que era um livro muito difícil para eu ler, eu tinha 13 anos, na periferia, não tinha ninguém pra trocar ideia sobre livro, nada, mas eu li o livro também e falei: é isso que eu quero: eu quero ser leitor pro resto da vida. 
 
Diário - O que te movia nessa época?
Ferréz - Nessa época, eu estava trabalhando numa padaria, servia pão para os outros, e já escrevia umas poesias, guardava umas poesias no bolso. Toda hora eu tava atendendo um cliente, tinha a ideia de um poema, aí anotava. E o patrão brigava muito, falava: "a fila do pão tá imensa, você tá escrevendo essas porcaria". 
Lembro que eu fui mandado embora do primeiro emprego que eu trabalhei por causa de um livro do Hermann Hesse também, "O Jogo das Contas de Vidro". O livro é grande pra caramba e eu não terminava de ler esse livro, e meu patrão me pegava lendo toda hora, até o dia que eles me mandaram embora. 
 
Diário - E tinha alguém que te mostrava autores?
Ferréz - Ninguém me apresentou ninguém. Vou te falar a real, quem me apresentou os autores foi o sebo. Eu ia no sebo e comprava um livro do Hermann Hesse, aí tava escrito na contracapa assim: "procurar Bukowski". Aí eu falei, "pô, o cara anotou aqui, deve ser parecido". 
Aí eu ia ler Bukowski, não tinha nada a ver com Hermann Hesse, mas aí eu já estava procurando Bukowski. Aí no próprio livro do Bukowski ele dava um referência de John Fante, aí eu ia procurar John Fante. E a minha literatura foi assim. Aí, eu tava numa feira lá no centro e o cara falava: "Ferréz, você já leu Plínio Marcos?". 
Não. "Pô, anota aí que você tem que ler". Aí eu ia atrás de um sebo comprar Plínio Marcos. Foi assim que eu fui me identificando. E até hoje. Outro dia um cara chegou pra mim e disse "você tem que ler o Carrascoza, Carrazcoza é bom". Aí eu fui ler o Carrascoza.
 
Diário - E na sua casa, nessa época da descoberta da literatura, como era o clima na sua casa?
Ferréz - Minha mãe e meu pai estavam em início de separação. Meu pai era motorista e minha mãe era doméstica, trabalhava na casa dos outros fazendo faxina, e eles já estavam se separando, o clima era ruim. Eu tinha que trabalhar para ajudar em casa, e depois que meu pai saiu eu tive que assumir a coisa de casa mesmo, fazer compra, manter as coisas dentro de casa, e aí foi mais difícil ainda, e escrevi tudo nessa adversidade. Tenho um irmão mais novo e uma irmã mais nova. Ela foi trabalhar logo em seguida, e foi meio barra pesada, virei homem mais cedo. 
 
Diário - E a ideia da Literatura Marginal, como surgiu?
Ferréz - A ideia surgiu mais ou menos ali em 98, porque quando eu tava escrevendo o "Capão Pecado" (primeiro romance de Ferréz), o pessoal perguntava: "ah, você é literatura contemporânea?" E eu não me identificava com literatura nenhuma, nova geração da literatura, nada. 
Mas me identifiquei logo de cara com Plínio Marcos, João Antônio, Lima Barreto, e comecei a achar que eu era dessa literatura marginal. Falei "meu, eu sou da literatura da margem, mesmo, não tenho ninguém pra conversar sobre livro aqui, imagina sobre fazer literatura". 
 
Diário - E os saraus
Ferréz - Os saraus vieram um pouco depois, 2001, 2002, fenômeno que se alastrou mais em 2006, 2007. Começou faz tempo, mas pegou impulso em 2007. Quando eu estava divulgando meu primeiro livro, de poesias, que escrevi em 97, chamado "Fortaleza da Desilusão", não tinha sarau nenhum, evento nenhum. 
Eu ficava pedindo pra falar nos palcos de hip hop, pedia pra falar quando o candidato político ia na quebrada, aí eu subia antes pra falar uns textos. Cansei de receber vaia de gente dizendo "a gente quer ver o grupo, sai daí do palco" (risos). Mas eu lia as poesias pros caras. Eles falavam "olha o poeta aí" e tal. Não existia sarau, evento literário nenhum, era muito difícil. 
 
Diário - E, hoje, o pessoal de fora das comunidades tem procurado os saraus nas periferias. Como você vê isso? 
Ferréz - Acho que as coisas têm que interagir e as pessoas têm que conhecer. E tem mais: pessoas de outra classe não procuram coisas quando é ruim, procuram quando acham bom. Então, se tá achando bom, pega o caminho inverso e vem assistir mesmo. A gente foi tanto para o centro pra assistir às coisas de valor que tinha lá. Acho legal porque é a primeira vez que a gente se apropria do negócio. 
Até então, eles sempre se apropriaram da gente: "ah, o samba tá legal, então vamos levar pro centro, pro lugar nobre". É o contrário, a gente viu o sarau, que era uma coisa elitizada e tal, e trouxe para a periferia. Tirou o piano, tirou o vinho tal, e pôs a periferia. Acho que foi uma apropriação de uma coisa que tinha a nossa cara, mas não tava com a gente. 
 
Diário - E nessa época que você estava descobrindo a literatura, você teve amigos que foram para o crime, chegou a ter a oportunidade de cair pra esse lado também? Como lidou com isso?
Ferréz - Eu nunca tive coragem, porque pra entrar pra essa vida precisa ter coragem. Minha vontade era trabalhar mesmo, ajudar minha família. Eu não tinha aptidão, não. Fui chamado várias vezes, andei com muita gente também, mas sempre procurava emprego noutro dia, tentar trabalhar, eu não desisti da coisa. Mas foi uma infância difícil mesmo, que não quero que ninguém passe, muito menos minha filha. 
Uma época de muito amigo morto, de chacinas, de ver cara que você gosta ali jogado no chão, morto. Eu lembro que quando eu tinha 8 anos de idade eu tive que pular um cara que tava no portão da minha casa. Meu pai falou: olha, o cara tá morto, você vai ter que passar por cima dele pra ir estudar. É uma coisa que eu não desejo pra nenhuma criança, nem pra adulto, passar por isso. Nessa parte a minha infância não foi boa. 
 
Diário - Como está a situação hoje? Vi que você publicou um texto em apoio ao Mano Brown, preso numa abordagem policial.
Ferréz - Acho que por um lado melhorou, mas por outro continua uma opressão muito grande. O Estado só se faz presente através da força policial, da truculência policial, acho isso totalmente errado. Existe um preconceito muito grande ainda com as pessoas daqui da quebrada, existe todo um tratamento errado que eles têm, todo um tratamento duro, que não é legal. 
 
Diário - E quando você vê cenas como aquelas dos protestos, com o pessoal tirando selfie com PMs?
Ferréz - Eu coloquei no face: se eles querem saber o que é viver na ditadura é só vim morar na periferia uns meses, né. Não precisa ficar posando ali, imaginando. Infelizmente, a gente vive se explicando aonde vai, tem que andar com nota do celular no bolso pra provar que o celular é nosso. Eu acho pobreza de espírito. 
Eu acho que a gente tem um trabalho maior de fazer essa classe média alta ler, porque falta leitura, falta eles aprenderem sobre história. Se soubessem sobre a história do país e um pouco da história do mundo, jamais posariam ao lado de um tanque, ainda mais do exército brasileiro, sabe. É uma pobreza de espírito que me deixa mais triste do que com raiva. 
 
Diário - Você acredita que boa parte da revolta de quem tem protestado é por conta dos programas sociais? 
Ferréz - Eu acho que a revolta dessa elite é porque ela não está acostumada a ver uma ascensão. Ela não pensou que ia ver uma ascensão da periferia, que ela ia no shopping, ela ia trombar com gente da periferia, que ela ia no aeroporto, ia ter gente da periferia lá. Acho que eles estão mais revoltados por não poder pagar o salário miséria da empregada doméstica do que propriamente pela falência de algum comércio deles, sabe? Então, o país vai ter que entender, a gente vai ter que se entender, se cruzar, compartilhar, participar disso tudo. 
E infelizmente tem uma resistência aí, dessas pessoas que não querem essa ascensão. Que pensou que ia ter um escravo dentro de casa, que dormia lá de graça na casa dele, que acordava duas horas da manhã pra fazer comida pra ele. E agora não tem mais. Agora a empregada tem que ser registrada. Agora tem que chamar ela como uma profissional. Tanto que estão tentando agora a terceirização. 
Viram que perderam uma parte - então, vamos tentar a terceirização, partir pra outro modelo escravocrata. Isso é uma média de um país que foi acostumado a ser tratado como colônia e continuou com a herança escravagista até hoje, infelizmente. Se você vai para qualquer lugar de primeiro mundo, Europa, Estados Unidos, a pessoa limpa a própria privada, porque ela não pode pagar uma empregada, tem que ser muito rica pra alguém poder limpar sua privada. Agora aqui a classe média não aceita limpar a própria privada. 
Ela tem que ter um subalterno, uma pessoa que olha cabisbaixo pra ela, que veio do Piauí, do Maranhão, uma pessoa que é estigmatizada o tempo todo, apelidada. Se tem esse costume, a gente tem de quebrar isso. Nós somos nova geração, o país tá acontecendo de forma diferente. O Nordeste, as pessoas estão fazendo faculdade, estão dominando, estão enriquecendo mais do que São Paulo, espiritualmente e mentalmente. 
 
Diário - Estrangeiros fazendo turismo em favela, o que você pensa?
Ferréz - Aqui no Capão não tem isso, pelo menos com o nosso pessoal, que a gente gosta, não tem isso. Não acho legal um cara parar e tirar uma foto de um moleque ali sentado. Realmente não gosto, me incomoda. Algumas pessoas já vieram com essa iniciativa... "ah, tem que fazer tal coisa, reverte para a comunidade". Eu não gosto, eu acho turismo uma coisa degradante, sabe? Não acho que volta nada pra comunidade.
 
Diário - Você acha que a literatura está assumindo um pouco o papel que o hip hop já teve com a juventude periférica no passado? 
Ferréz - Acho que a literatura já tem um tempo que ela entrou nesse engajamento, e pessoas tanto como eu, como o Sérgio Vaz, como o Sacolinha, Alessandro Buso, Rodrigo Ciríaco, todos nós de certa forma pegamos esse engajamento e tocamos o bonde pra frente. 
Acho que a gente pedia licença antes pro hip hop pra participar, hoje o hip hop pede um aparte também para participar com a gente. Acho que tem um respeito mútuo aí, a gente aprendeu muito com o hip hop, mas hoje a literatura marginal, a literatura periféria, ela tem também sua própria voz, tem um engajamento próprio. 
 
Diário - Nos seus livros você mostra o cotidiano, a realidade dura da periferia. Pra um moleque que está lá na Fundação Casa e pega esse livro, o que acontece com a cabeça dele?
Ferréz - O livro não vai fazer ele não passar fome, não ter as coisas. O livro é uma história. Ele vai ler, e vai se identificar com aquilo, e se entender no meio disso tudo. A pessoa não tem como mudar a história dela, se não conhece a história dela. Fica difícil ela poder mudar a própria história. Eu não tenho pretensão nenhuma com a literatura, acho que é só mostrar a vida mesmo como ela é, mas contar mesmo pra esse moleque que ele é importante, que a história dele vale a pena ser registrada, que ele pode ficar eterno também. 
Trecho do livro
Entrou pela primeira vez, talvez não fosse a última, talvez.
Ali dentro não tinha nome, não tinha cometido nenhum crime, era um número.
Não tinha que explicar nada, nem contar histórias.
Era simplesmente um número.
Não achou nenhuma cela com conhecidos, e o guarda começava a forçar uma escolha.
Olhou o velho pacato no xadrez e mais dois no canto jogando baralho.
Ouviu o impacto da água sobre outra água, balde vazio.
Tinha outro no banheiro.
Era ali mesmo, o guarda estava impaciente.
- Entra logo, ladrão.
Cumprimentou com os olhos, nada mais.
O velho continuava encostado na parede, olhos para um copo com
água em um pequeno banco de madeira.
Chegou no velho e disse que era temporária sua estada naquele
barraco, que amanhã procuraria com mais calma algum barraco
onde tivesse um amigo.
O velho abaixou a cabeça e levantou em sinal de compreensão.
Os outros companheiros o chamaram para entrar no jogo,
preferiu não, era cedo demais para algum contato.
Chegou a hora da janta, o bandéco foi entregue a cada preso,
o velho nem olhou, somente esticou o braço e pegou, abriu e
começou a comer lentamente. Foi a primeira vez que tirou os olhos do copo d'água.
Ficou contente com a refeição, mesmo com o arroz cru e quebrado.
A fome era a fome. O caos era o caos.
Extraído do conto "Canto da Sereia", do livro "Os Ricos Também Morrem"

4 comentários:

Claudia Blatt disse...

Gostei da entrevista. Gosto também do Hermann Hesse.

Cristiano Alves disse...

Quando ferrez virá em BH palestrar?

Cristiano Alves disse...

Ferrez manda muito bem!

Cristiano Alves disse...

Quando ferrez vira em BH?