Blog do escritor Ferréz

Deus foi almoçar - o novo romance de Ferréz

Foi olhar quando o barulho chamou sua atenção para o derrapar dos pneus no asfalto.

Não devia ter olhado: o rosto comprimido no para-brisas; os vidros voando e saindo, apenas algumas gotas de sangue; as lembranças indo embora: os dias na penitenciária; falta de pagamento da pensão alimentícia.

Tudo vai embora numa fração de segundos. O abandono era mais grave que a prisão em si.

Sim, o abandono foi sua maior escola, a solidão chegou devagar, e só assim, sem companhia, sem cartas, sem visitas, começou a repensar sua vida ou pensar nela pela primeira vez.

Nem a grande festa que havia preparado para a filha, nem a conta de luz atrasada, nem a visita que deixou de fazer a sua tia no hospital, muito menos a revista não lida, e o cigarro não fumado. Nada disso importava agora, que seu rosto estava todo cortado, que seus olhos haviam saltado numa tentativa desesperada de verem algo além da morte. Foi assim, uma simples fechada de outro veículo, que perdeu seu bem mais precioso. O céu não é azul, ele reflete o mar, mas para quem estava livre, para quem estava nessa situação, o céu não era mais nada.

Algumas pessoas pararam, outras correram, tentando salvar suas rotinas, ele continuava imóvel, sempre foi assim, desde pequeno, perante alguma situação que não sabia lidar, paralisava.

Vendo a imagem do carro se chocando contra o poste, tentava equilibrar a tristeza, mas estava sendo nesse momento inundado pela dor, e sabia que depois de alguns minutos, parentes seriam avisados, médicos seriam chamados, seguros seriam acionados, e pela mágoa seres seriam fragmentados.

Agora tudo estava parado, o rosto continuava fixo ao para brisa, os braços estavam para traz, o poste havia encurvado um pouco, e o carro assumiu uma estranha aparência de algo vivo, com a boca passando pelo poste, no intuito de comê-lo, com os olhos fixos como se estivesse olhando algo que não pudesse tocar mais a frente.

Ninguém saberá que aquele jovem é o mesmo que há 29 anos era somente uma criança de menos de um ano de vida, e que seu pai lhe colocava num pedalinho e o empurrava contra uma parede, e o menininho sempre ria muito quando sua cabeça ia para frente e pra traz, quase batendo.

Um jovem tentou abrir a porta, Calixto continuava parado. Um homem mais velho tentou ajudar o jovem. Calixto continuava parado. Uma senhora sacou um celular da bolsa, discou uma seqüência de três números e começou a gritar sobre um acidente, Calixto continuava parado. Uma viatura chegou, os homens seguravam os revólveres ao saírem do carro, para logo depois olharem a vítima e darem o veredicto.

Aquele homem que um dia foi um menino, que falhou em não dizer que amava sua melhor amiga, matou esse amor pelo medo.

A alma havia abandonado o corpo.

Não daria tempo para relembrar a varanda da casa, nem as flores na janela. A casa era modesta, mas ele estava seguro, não tinha medo de nada quando estava do lado de dentro.

A mãe, a todo momento, cuidando das flores no quintal.

Agora estou parado em meio a esse caos, não vejo meu pai por perto, com seu suor no rosto.

Todas as casas próximas têm as janelas fechadas, ninguém está presente nessa vida. Não queria escutar esse grito em meio à multidão, as mãos da mãe tentando puxar a cria, não deviam deixá-la ver isso.

Estou indo embora, pensei que ia entender tudo, mas está cada vez mais confuso, e agora sei menos do que pensei. Nessas horas fico imóvel.

Ninguém saberá que aquele corpo leu o anúncio colorido dos envelopes de Dipn´lik, que beijou uma menina na escola enquanto chupava um Dulcora, que queria ter um eletrofone, que bebeu Grapette com sua irmã, que jogo bola sem Kichute, que nunca teve um Lango Lango, que escutou Meu Mel do Markinhos Moura, que procurou a mãe de Marco em todos o capítulos daquele triste desenho, apertou a barriga do Murfy, montou castelos com Pinos Mágicos, chupou pirulito Zorro, ninguém saberá que ele ficava de madrugada vendo revistas pornô do primo debaixo do lençol, com a lanterna iluminando as imagens, e que aquilo era muito melhor do que o sexo que veio praticar depois.

Eu saiu de perto daquela tragédia, e em alguns minutos estou pensando só na minha vida, vou para algum lugar que me de prazer.

A maioria finge escutar, mas do que me queixo? O meu passado fica mais distante a cada novo passo, o nome que me deram, era algo que já teve um sentido, Calixto. Eu não quero essas recordações, essa vida de merda, essas mortes sem sentindo, não foi isso que eu queria pra mim, não é possível que é isso que todos querem, no final eu caminho para que alguma porra de fim justifique alguma merda de meio.

4 comentários:

giulia tortoli disse...

ola senhor ferrez, conhecemos seu blog pela aula de português, e pelo o texto biblioteca êxodo gostamos muito do seu trabalho e suas historias. Gostamos muito das coisas que senhor aposta, o seu blog e uma e uma bela influencia para o jovem porque podemos ler a suas historias nossa opinião e seus contos achamos muito legal e curioso e queremos conhecer mais seu blog estamos realizado um projeto chamado sanzide espiraçaoes nosso projeto e um pequeno jornal espicialmente feito para jovem. Agradecemos a sua colaboração do senhor. Alunos E.E. ABILIO ALVES MARQUES 7 ano D. Alunos Giulia TORTOLI RIBEIRO, LARISSA FERNANDA AZEVEDO DE SOUZA, WAGNER LUIS LUCAS E ISABELA FIRME ALVES

giulia tortoli disse...

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eduardo miranda disse...

Olá somos da escola Abilio Alves Marques do sétimo ano B, estamos acompanhando todo seu projeto e estamos adorando seus textos.Resolvemos fazer um projeto parecido com a Biblioteca Exôdos e depois vamos fazer um fanzine.
Gostamos muito deste texto pois relata experiencias vividas por alguem ,e emociona muito quem lê.Esta postagem relata um acidente tanto do ponto de vista do motorista e do acidentado por exemplo no segundo paragrafo fala perfeitamente o ponto de vista do motorista e no oitavo fala perfeitamente bem o ponto de vista do acidentado .Nos adoramos o seu texto de Eduardo Miranda,Pamela Lima e Leonardo Corona e esperamos que responda

eduardo miranda disse...

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