Blog do escritor Ferréz

O ofício e a oração (especial para a Revista Fórum)

O ofício e a oração. Noite. O filme está bom, mas paro na metade e vou ver um doc, amanhã é dia de compromisso e a mente tem que ficar a milhão. Lá fora os muleque joga bola, uma barulheira do cão, uns palavrão entra pela sala, a vizinha já proibiu eles de jogarem na porta dela, eu de vez em quando só digo para dar uma maneirada na boca suja. O doc é duro, ideológico, marca presença, foi presente de um mano que me trombou no metrô, disse que gostava dos meus textos e que tinha um trabalho paralelo na escola onde dava aula, um trabalho de conscientizar a molecada. Subo e pego um livro, Capitalismo de laços, os donos do brasil e suas conexões. Como dizia o Ghóez temos que estudar os inimigos. Logo o sono chega e amanhã o dia vai ser mais curto. Dia. Lavo o rosto e tomo um gole de café preto, vou pro quartinho separar os livros, alguns Cronistas, alguns Desterro, um exemplar só do Manual e vários Capão Pecado, o que até hoje mais vende nas palestras. Olho a pasta com os textos, alguns contos, algumas crônicas, sempre deixo para escolher na hora o que vou ler, o clima que me diz o que fazer. O telefone toca, o motorista quer saber que horas pode vir, agora que não tenho mais celular tá todo mundo inseguro, pensando que eu não chego, mas sempre chego. Marcamos o horário, nessa palestra vai ter transporte, as vezes num tem, ai o metrô me leva ou arrumo um parceiro para me levar, já pedi favor para tantos que nem sei, num gosto de dirigir para longe, ainda mais quando volto guiando depois de tanta idéia, a cabeça fica voando. A bolsa tá arrumada, a Elaine pegou a máquina fotográfica, nessa ela vai comigo, me ajuda a montar a mesa com os livros, a tirar as fotos, e me faz companhia no caminho as vezes longo. Nessa vamos varar São Paulo, de um extremo a outro, sentido Zona Leste. O motorista é silencioso, dirige com atenção, já peguei uns loucos que cês nem imagina, esse é tranqüilo, em uma hora e meia chegamos, a vã balançava um pouco. Ainda não posso pegar peso por causa da recente cirurgia, mas a mochila vai um pouco cheia, esperança de boas vendas. Entro na escola, a responsável pelo evento vem me abraçar, conversamos um pouco, os alunos estão animados, nunca conheceram um escritor de verdade, segundo ela essa fita eu vou mudar hoje. Já fiz palestra em todo lugar, Fundação Casa, FAAP, na gringa, cadeia, liberdade provisória, escola do interior, cursinho universitário, e nelas já vi de tudo, palestra de autor que só quer se promover, provar que tem seu lugar de destaque no mundo, outros que só falam da obra que ainda vão fazer, tipo uma pré venda tá ligado? Outros vão falando dos seus novos projetos para crianças que não sabem nem quem é ele. Tarde. Vou ao banheiro, olho no espelho. - Senhor me ajude a encontrar o caminho e poder passar um pouco, falar da conspiração da mídia, colocar na cabeça dessas crianças para não seguir o caminho da massificação, lutar contra o consumismo, mostrar a verdade do Ser em vez do Ter. Trazer o amor a família, o valor da periferia, a nossa auto estima, a importância cultural que temos, o valor da nossa cor e da nossa história, me ajude senhor, a trazer consciência, senso crítico, auto valorização, e mostrar o plano maquiavélico que sempre beneficiou a elite e nos massacra financeiramente e culturalmente nesses anos. - Que eu traga em minhas palavras o inconformismo, que eu transmite o ódio de todos os dias iguais, sem uma vida justa para todos, que eu provoque não a revolução pessoal, mas a mudança da sociedade, não o ganho material mas o valor social de uma vida digna para todos. - Que eu represente senhor, com responsabilidade, os que nunca escreveram, nunca rimaram, nunca sequer tiraram os textos da gaveta, para que esse ofício, a labuta com a caneta seja uma centelha de esperança e não de comodismo. - Me ajude senhor, a pregar contra as marcas que me povo usa, mas que usam mão de obra escrava igual ao meu próprio povo, contra o álcool que contamina nossas crianças, contra a sua evolução as drogas, os alienadores de realidade que é tão dura, mas é nossa verve para ter sucesso pela dor senhor, me ensine a falar com sábias palavras contra a elite que não mostra o nosso real valor, que nos humilha, nos envergonha pelo nariz, pela boca e ri do nosso cabelo, me mestre como nessa uma hora, deixar uma marca nessas vidas, para que eu também tenha um sentido na minha própria vida, sendo verdadeiro e honesto, afinal o gueto reconhece isso logo de cara. Me ajude senhor, para representar todos os amigos que morreram travando a guerra, aos que não puderam ver mais o sol de cada dia, e aos que nunca souberam o valor de uma vida, que eu fale em nome dessa verdade hoje. Da paciência de Mandela, da fúria de Malcon, da verdade de Luther King, das ruas de Lima Barreto, dos versos de Sabotage. O espelho não responde, mas eu encaro ele ainda por alguns segundos, para ter certeza e vou.

2 comentários:

Tulio Atanazio disse...

Ferréz, sou seu fã cara. Bacana ver um cara que transforma a vida da galera da periferia através da Literatura. Também sou cria da periferia aqui de Minas Gerais - BH,e acredito que a única coisa que pode salvar nossa alienação realmente é a educação e as artes, e acredito que na linha de frente realmente estão a Música e a Literatura.

Tulio Atanazio disse...

Ferréz, sou seu fã cara. Bacana ver um cara que transforma a vida da galera da periferia através da Literatura. Também sou cria da periferia aqui de Minas Gerais - BH,e acredito que a única coisa que pode salvar nossa alienação realmente é a educação e as artes, e acredito que na linha de frente realmente estão a Música e a Literatura.