Blog do escritor Ferréz

Relógios


Relógios

As garras do sol entravam pelos vãos das telhas.
O calor então se espalhava e era hora de levantar.
A pesada coberta, que ganhara no casamento há alguns anos não combinava com nenhum lençol nem forro de travesseiro, mas sua esposa também não deixava de dormir por isso.
Era um dia especial, iriam estalar os relógios para controle de luz.
Chegou como todo mundo, foi logo morando em casa de parente, levantava cedo, fazia bico de pedreiro, fazia compra e venda de coisas usadas, vivia com relógio no bolso e oferecia pra quem chegava perto, isso tudo durou uns anos, até Matheus montar seu bar e construir seu barraquinho.
A favela não tinha iluminação em suas vielas, os moradores então colocavam bocais do lado de fora da casa e assim iluminavam as estreitas ruas, enquanto de quatro em quatro anos, alguns vampiros saiam de seus grandes castelos para prometer que a iluminação chegaria em breve.
Os moradores foram aprendendo aos poucos, que o máximo que iriam ganhar era um show nessas épocas de eleição.
Sempre ouve uma discussão na comunidade, quanto a não ser cobrado corretamente o valor da água e da luz na favela, como se todos ali vivessem de favor. Um dia teve um grande debate, pessoas da rua de cima, que tinham terrenos legalizados, e por isso se achavam melhor que todo mundo, reclamavam que a favela não pagava seus impostos corretamente, era tudo tacha mínima.
Matheus morador da favela e vindo do Piauí definiu tudo quando disse bem auto, que pra morar do lado de córrego e viver com bandido e traficante, eles não tinham que pagar nada, tinham sim que ser reembolsados por tão precária vida, o silêncio definiu o argumento certo.
Os moradores da rua de cima, voltaram para suas casas particulares, mas quando faltava luz, faltava lá também, quando tinha tiro, lá escutava também, quando havia cheiro de maconha era de lá que vinha também, mas quando a polícia envadia os barracos, lá na rua de cima ninguém mexia.
Começaram a chegar os homens, seus macacões, seus empregos invejados, suas botas isolantes, seus equipamentos, tal qual pendurados ao ponto de uma criança chamar de super herói um daqueles homens.
Enrolaram as cordas em volta das barrigas, pegaram as escadas, começaram a subir e em seguida desligaram toda a energia.
Os meninos viam os cabos no chão brilhando, o alumínio de repente virou brinquedo, depois pães, doces, e muitos outros desejos.
Era só levar no lugar onde se compra de tudo, onde tem um monte de coisa jogada, onde o homem vive sujo e suado, um ferro-velho.
Mas os homens de azul estavam bem atentos.
Até que Matheus saiu do seu bar nervoso, com um serrinha dessas de cortar cano começou a picotar os cabos, um dos técnicos tentou descer da escada e Matheus avisou.
- fica aí, se descer é pior.
O homem voltou o passo e ficou observando, não antes de dizer baixinho.
- ai é bagunça porra, na nossa cara!
E Matheus continuava a picotar os pesados cabos de alumínio e como um desabafo disse alto para que os homens nas escadas ouvissem.
- to sem luz no meu bar, todo mundo vem aqui quando quer, vão por conta cara pra pagar, então que se dane tudo.
Os meninos faltavam pular em Matheus, atento aos pedaços, e em alguns instantes quando um dos técnicos decidiu descer e segurar uma ponta dos cabos, Matheus gritou.
- pega aí molecada, pode pegar, leva e vende, é tudo nosso dinheiro mesmo.
O técnico continuava com a ponta do cabo na mão e falava baixinho.
- pô, ai já é bagunça, para por favor, vai complicar a gente depois.
Os meninos saíram dos barracos, como se fossem convocados para um grande carnaval e cada um pegou seu pedaço de cabo.
No outro dia, após o dono do ferro velho ser preso por comprar produto roubado, no caso os cabos de energia, não era difícil ver os moradores todos eufóricos comentando.
- Cê viu que relógio bonito? todo transparente, parece até uma coisa do futuro.
- Mas dizem que é assim pra gente num emendar cabo, num adulterar.
- Deve ser mentira menina, é assim pra ficar bonito, todo de acrídico.
- Num é acrídico, é acrílico sua boba.
- O seu gira como?
- Num sei, vamos lá ver, mas dizem que cada um gira diferente do outro.
- E você percebeu que a luz num mudou nada, ficou a mesma coisa, num pode tomar banho depois das sete senão apaga tudo, que nem era antes?
Mateus voltando do açougue, com um saquinho com alguns bifes, passou pela viela principal, pulou alguns buracos, molhou a ponta do pé na fossa estourada há meses, e percebeu que todos olhavam pros seus relógios, encantados, como um grande presente da prefeitura.
Dali alguns dias, quando um outro homem de azul lesse os números, tirasse uma máquina da bolsa e cuspisse a primeira conta, o encanto se acabaria.

Ferréz é escritor
Foto tirada pelo autor no Jardim Comercial, ponto final do ônibus.

3 comentários:

Éder Menegassi disse...

Nem pão, nem circo...

japao disse...

foda...

Guilhermé disse...

Falar o que? O silêncio elege o argumento vencedor.