Blog do escritor Ferréz

Prefácios

Salve
Tudo começa assim, com uma apresentação, o Plínio dizia que não gostava, mas na maioria é bem vindo, além de apresentação do texto ou do autor, um prefácio é outra visão da obra, é outra forma de mostrar aquilo que as pessoas vão ler. Também é uma forma de trazer a tona algo que ficou de fora, que não coube, ou não será visto facilmente.
Quando faço um prefácio, penso na responsabilidade de representar aquela pessoa, aquele filho que ela gerou e todos que vão ler, penso nessa responsabilidade e depois tiro algo de dentro sobre aquilo.
Logo abaixo está alguns "batismos" desses filhos que foram gerados por autores tão surrados pela vida, mas bem cuidados pelos leitores, um trecho inédito do prefácio do primeiro livro de Érica Peçanha e logo abaixo o prefácio que fiz para Sérgio Vaz, Ridson, Tico e uma introdução que fiz pro disco do professor Pablo.
espero que eu tenha batizado esses afilhados direito.

Uma menina na capital da solidão. (feito para o livro inédito de Érica Peçanha)

O sinal da escola era seu despertador, embroa não fizesse eco na casa de dois cômodos. A mãe começou a alisar seu cabelo quando tinha dez anos. Tudo bem que ela queria ser borboletinha da Mara Maravilha (tipo paquita da Mara); mas para balancear você conheceu algum adolescente que gostava do Milton Nascimento? Ela tem essa vantagem.
O pai assinava o círculo do livro, e tem uma trajetória como liderança do bairro, coisa que influenciaria a pequena para a vida toda.
A menina leu Negras raízes, Steve Biko, Malcom X, Nelson Mandela, e Florestan Fernandes e com este último descobriu sua profissão.
A mãe da pequena tricotava, e a menina apoiava os livros nas blusas que usava.
Dizia que ia estudar, estudar muito pra ninguém machucar
.
Introdução ao caos. (prefácio publicado no livro de Iatã Cannabrava)

Num esquenta, me dá licença e não se preocupe, odeio sinopses, trailers e tudo que indique o que vou ver, portanto não vou ousar narrar as fotos, comentar sobre seus detalhes, nem direcionar seu virgem olhar.
Falar do fotógrafo é falar da prensa, e o que sai dela varia de acordo com o acabamento.
Ler as fotos de Iatã traz dor, porque não é suave nem um pouco.
O olho mal do fotógrafo do terror que não preparou cenário, nem subjugou a estética do organismo que sobrevive a cidade grande e ao capetalismo.
Em época de infernet muitos prostituem a imagem, mas algums ainda sobrevivem do que sabem fazer de verdade.
Esse moço é um caso destes, não passo um pano pois ele rasga, assim como as fotos, mas verdade seja dita, a máquina é um acessório que veio de fábrica com esse homem.
O flash disparava enquanto o vento se aproximava, levava os cabelos e dava a sensação de um alívio.
O que escodemos de nós mesmos ele tenta descobrir.
A ação intelectual que começa com a certeza de congelar momentos, de parar o tempo, de registrar um detalhe da obra do universo, um frame da criação.
Hércules Florence se orgulhará das fotos da sua máquina meu pequeno homem olho.
Conheço muita gente que anda com máquinas caras e olhares pobres, se diz fotógrafo, mas como na minha profissão, não é a caneta de ouro que te faz ser cronista de um tempo ruim.
Esse corpo não desperdiça apertos de dedo, não inutiliza olhares, não tem como escolher entre oportunidades vistas só por alguém que nasceu para isso.
O fotógrafo do “xácomigo”, que nunca deixa de se jogar no chão, de subir nas telhas, de olhar nos olhos e não pedir pose, o mano que nunca pisca, quem viu Iatâ piscar está mentindo.
Ele não tira fotos para expor de costas, ele olha de frente, encara você e te mostra o abismo.
As fotos desse ser não são quebra cabeças, são diretas, certeiras, como bala perdido da PM paulista.
Seus olhos não se fecham para o cartão postal do fim do mundo, se São Paulo está em guerra ele está preparado, mais que armas ele mostra rostos.
A gráfica não chega no tom, não consegue o nível de realismo, não mantém o brilho, o papel não tem o mesmo toque, a reprodução de suas fotos são tentativas de imitar o inimitável.
A perifa se desnuda para Iatã, como o ser vivo e mutante que é, não com uma dama nem com uma prostituta, muito além de qualquer extremo, embora seja na Zona Show onde o espetáculo acontece.
As fotos desse rapaz você não vê, você lê.
A primeira fotografia Nicéphore Niépce aqui ninguém viu, mas o carro forte com três manos na frente, foi vista, copiada e colada nas portas dos guarda-roupas de meninos que brincam com armas e sonham com motos, de meninas que brincam com filhas e sonham com bonecas.
Prata numa placa de cobre, fazendo os olhos tentarem registrar, mas a eliminação de cores não nos deixa guardar essas imagens como são.
Egoista, cada momento ficará só com ele, mesmo com novos amigos e amores, ficará só com ele, na cidade onde a vida é uma pilha de papel esquecida, aqui onde muitos esquecem o sentido da vida.
O que se sente agora ao olhar as fotos, é que queriamos que as margens fossem abolidas, pois além daquela janela tem a continuação da vida.
O caos é a palavra mais próxima do criador.
Iatã nos mostra essa proximidade.

Ferréz
Inverno de 2009
Procura-se poeta (publicado no livro Colecionador de pedras de Sérgio Vaz) Editora Global.

Um copo de café com leite para iniciar o dia no front.
Um corpo já preparado com várias cargas de realidade.
E nada mais do que isso é preciso para o traficante de informação correr o risco de ser preso por porte ilegal de poesia.
O nome na patente do guerreiro cultural da periferia é Sérgio Vaz.
E daqui a alguns minutos ele irá guerrear pelas palavras, onde poetas geralmente não vão, em mais uma base cultural periférica, chamada popularmente de escola.
O pai não foi embaixador, e não estimulou o filho a fazer um curso de direito, muito menos engenharia.
A mãe não foi socialite, nem deu ao filho algum sobrenome que desse status.
Mesmo assim, acredita se quiser, esse cara vai teimar em mexer com palavras no futuro.
Não as palavras que ocupam a placa pendurada no varal da barraca do feirante, nem a da caixa de isopor onde se lê: vende-se coxinhas.
Ele não tocará em palavras que enchem o nosso país de hipócritas leis, muito menos gastará algumas delas em algum discurso moralista inútil.
Eles as lapidará, as recolherá no caos cotidiano em que, de brinde vem junto o sangue e também o sorriso.
Observará, e num momento de loucura vai joga-las numa folha, e nessa folha você vai ler, que junto com a pistola vem a linha sendo desenrolada da lata e um menino mandando busca em outra pipa no céu quase não visível pela altura dos barracos.
Não somos um bloco, não somos iguais, e a palavrarma de Sérgio Vaz prova isso.
Como ter um traço nosso e ao mesmo tempo não se afastar do que esta sendo produzido no mundo?
Como procurar uma identidade própria e ao mesmo tempo representar outros pontos de vista? Só colecionando pedras que nos aparecem pelo caminho.
No meio de uma terra devastada pela canalhice plantada a tantos anos, alguém quer semear a poesia e certamente colherá incompreensão.
Os pensamentos vadios do poeta se disseminam quando vê que subindo a ladeira mora a noite, e na margem do vento numa rua de terra ele lê a poesia dos deuses inferiores.
Se outros poetas pedem silêncio, ele pede mais barulho.
Se outros escritores pedem paz, ele quer é guerra.
Por favor não repasse a ninguém os livros desse homem que não quer ser mais um na imensa massa manipulada pelos patronos.
Isso pode acarretar algum crime, se não hoje, talvez amanhã.
Siga um conselho, os poemas de Sérgio Vaz estarão mais seguros na sua memória.

Ferréz

Meu povo (recitado no primeiro disco de Prof. Pablo, Estratégia)

Nas ruas sou mais um a caminhar
Vejo a anuncio do Mac Donalds
Como um colecionador admiro o quadro raro
Vou abraçado ao meu rancor
Olhar a loja de carros importados
Mas sei que o que tenho nas mãos são currículos
Que serão rasgados
Olho a madame e percebo que seu sapato é mais caro
Que minha pretensão de salário
Volto mais uma vez pro gueto
Vou sair amanhã de novo, bem cedo.


Ridson o Transmutador (publicado no primeiro livro de Ridson)


Escritor pra mim sempre se pareceu muito com um super-herói.
Quando lia as aventuras do Super-homen, não era o herói fantasiado que admirava, era o tímido e discreto Clarck Kent, que como eu andava com um caderninho na mão, e tinha vergonha de olhar uma garota nos olhos.
Mais parecido com um transmorfo, tão realista que para agüentar o que percebe vive como camaleão, só assim o nosso dom, ou maldição (depende do ponto de vista) nos mantém ainda vivos.
Fingimos ser quem não somos, fingimos comer o que não comemos, fingimos viver, o que não vivemos.
Um cara chamado Ridson.
Uma vez chegou uns escritos dele pra mim, me impressionou logo de cara, versos cortantes como facadas rápidas e cruéis, e ao mesmo tempo trazendo uma linha de pensamento em todo o trajeto, um cão numa viela e não um lobo da estepe.
Pode ser que seu talento passe batido por outros meios, mas no Rap e na Literatura Marginal não. Aqui perante meus olhos e de outros tantos ele foi e será sempre visto, lido e ouvido.
Porque o conteúdo que enche sua carcaça tem muito dor, revolta e também esperança.
Ele ativa seus super poderes, digita e se transforma numa inocente menina que quer dançar balé, e não sabe que existe uma palavra no mundo, que traz tudo de ruim que um ser humano pode ter. preconceito.
Ele se transmuta novamente e dessa vez é um sábio, coisa que muita gente não consegue nem fingir ser.
Mas o inquieto Ridson ainda tem fôlego para ser um ator desprezado, e ensaiar seu principal papel, no relato “Extremamente necessário” ele interpreta ele mesmo e com isso prova que o que realmente lhe cai bem é o papel de escritor. Na acepção total da palavra.

Ferréz Capão Redondo 12/09/2006
Meu mundo irreal. (publicado no livro Elas Etc, de Tico)

Sabe, o Tico foi o único autor que eu publiquei sem ter conhecido pessoalmente, a vida só vai nos apresentar acho eu, depois desse texto.
Melhor assim.
Sem simpatias, sem misturar a obra com o autor, se é que isso é possível.
Estranho né? Mas eu conheço ele melhor que muito amigo intimo, porque ele está todo em “uma noite com Neuzinha” a primeira lamina que tive contato.
A noite ta fria, muito fria, terminei agora a pouco de jantar “Álbum de Retratos” e de sobremesa degustei “A visita”.
Pra aproveitar o clima coloquei Assassinos por natureza no dvd e não sei exatamente a ligação com esse tal de ‘Elas Etc ’mas alguma sei que tem.
O Tico é do Umarizal, extremo da sul, grandes ruas de terra, pequenos córregos, muitas igrejas e bares, nada diferente dos outros cantos, só que lá conheci tanta gente legal, mas muitos já se foram, inclusive meu grande amigo, Alex.
Pra nós da perifa o lugar é o sobrenome do cara.
Num é fácil sobreviver aqui, e quando leio as histórias do Tico, eu sinto sua fuga, não aquela ligada a covardia, mas aquela da reconstrução, sei lá, de achar tudo tão errado que temos vontade de fazer melhor.
Dificilmente conseguimos.
Histórias não fáceis, não comuns e muito bem elaboradas.
Difícil foi poder sair daqueles mundos que no fundo, são o lugar de todos nós.
Não sou critico, e uns dizem que nem escritor, embora não concorde com a segunda parte, o que posso falar sobre seu primeiro livro, meu ilustre desconhecido?
É diversão garantida, ótima literatura de rua, e com certeza nenhuma linha será em vão.
Toda palavra será castigada pelas mãos e a mente de um escritor com os pés na periferia e a mente no mundo, um cara nada desconhecido chamado Tico.


Ferréz Capão Redondo setembro de 2006.

4 comentários:

Érica Peçanha disse...

A afilhada sentiu-se muito honrada e emocionada com o texto. E avisa que o livro já está no forno: pronto para sair entre a última semana de setembro e a primeira semana de outubro.
Cabe dizer também que o prefácio é parte de uma troca muito interessante: depois de anos acompanhando o escritor e de produzir uma tese sobre a literatura marginal- periférica, eis que o escritor torna a antropóloga personagem e parte da história em um prefácio que retoma os tortuosos caminhos de sua vida pessoal e acadêmica.
Sucesso pra nós tod@s!
Um abraço.

WILSÃO NEGREDO E RENATO VITAL A CORRENTE FORTE DO GUETO disse...

Todo poderoso quer menosprezar um trabalho inovador.
Todo idiota quer, furar de bala, um sonhador.
Todo ser que sonhar, sentiu a dor.
Todo ser que escreve, no poder da palavra, já é um escritor.
E todo aquele que não acredita, será um perdedor
E aquele que persistir, esse sim, será um grande vencedor.

Para Ferréz escritor, amigo e muito mais.
dedicado também à:
Robson Canto
Sérgio Vaz
Érica Peçanha
Jairo
Buzo
Sacolinha, entre outros guerreiros da perifa!

Jack disse...

Ferrez, é a primeira vez que entro em seu blog, queria fazer uma pergunta meio sem jeito,por curiosidade: o que você acha da migração de nordestinos para são paulo? e essa rivalidade dos estados do sul sudeste com os estados no nordeste. Valeu.

pri disse...

Salve Ferréz !
Meu nome é Leandro tenho 23 anos fiz dia 5 de outubro.
Eu não levo muito jeito pra escrever, setima serie, Brasil e meus motivos,
acento, ponto final e tal, mas a idea sempre é a mesma correr pelo certo, é o não é,eu numca gostei muito de ler mais ai eu li o seu blog quase todo e curti muito, moro na sul de são paulo não muito longe da fundão,
eu estou começando no rap agora eu tenho um pc meia boca que da pra fazer algumas gravações e algumas bases e nesse pouco tempo já deu pra ver que essa vida de (mc) é mais dificel do que parece ser tem que ser guerreiro pra seguir nesse mundo porque você ta ligado folou que é rap logo vem o pre-conceito
mais eu já acho até que normal, e é dai que vem essa minha persistencia e não é atoa que eu estou aqui eu queria te pedir uma ajuda sua para ingressar nessa vida do rap como dizem (eu não quero o peixe quero aprender a pescar) eu queria algumas dicas do que fazer como fazer e onde fazer ta ligado.
O rap é mais do que um sonho
é uma otima maneira de levar boas mensagens para quem precisa.

ai ferréz me arruma um dvd seu (hahahaha).

meu e-mail leparquealto@hotmail.com

valeu guerreiro e parabens pelas suas conquistas.