Blog do escritor Ferréz

Elicí (Ferréz e Edvaldo Quirino)


Elicí

Ele se levanta e toma um copo de café preto como a sua pele.
Elicí sim é criança cedo, e a precocidade na infância interfere.
Tem a vida tão corrida.
Trabalha seis dias por semana.
Entrega roupas de pessoas bacanas.
No final do dia paga as bebidas que o pai toma.
Se senta sempre sob a copa da grande árvore após o almoço.

Elicí ainda hoje eu ouço.

O galo já cantou e o relógio despertou.
Levanta e vai encarar a mais pura realidade.
Naquela manhã a mãe lhe disse:
“Filho, vai com Deus”.
Ele voltou, pegou sua mão e a beijou, pediu bênção e partiu.
Entrou no ônibus, encarou o cobrador, disse bom dia, sem resposta.
Desceu no paraíso (o paraíso dos ricos),
Pegou o metrô, desceu na Marechal, subiu a Angélica correndo.
A menina olhou, mas ele não podia parar.
Chegou um pouco atrasado, quando a patroa lhe olhava se sentia escravo.
De manhã havia muita entrega, e era sempre assim.
Quanto melhor para a patroa, pior para Elicí.
Sempre agradeceu pelo pagamento.
Entregava em casa de bacana e de prostituta.
Quando tinha entrega na casa de madame, algumas atendiam seminuas.
Perua exibicionista que lhe dava gorjeta e sorriso falso.
Um dia, um executivo parou o carro, lhe ofereceu dinheiro, Elicí mostrou o dedo.
Era meio-dia e a fome estava chegando.
Almoçou rapidamente em vinte minutos, tinha quarenta para descansar.
Na grande árvore, Elicí foi se sentar.

Elicí e o helicóptero levanta vôo.

Fecha os olhos, e começa a viajar.
Talvez um tratamento para o pai, uma bicicleta para o irmão.
Talvez tirar a mãe do sufoco, melhorar a casa.
Aquele beijo quente, daquela menina linda, e até uma moto.
Elicí com os olhos fechados não vê o pesadelo dobrar a esquina.
Um carro importado, vermelho, um casal bem-nascido se tocando.
Tanto afeto, tanta bolinação que esquece a direção.
Elicí ouve as folhas da árvore e o grito estridente dos pneus no asfalto.
Ouve o estrondo.
A notícia vai correr no jornal.
“Menino negro morre prensando ao tronco.”
A história se repete.
O resgate é acionado, socorro de gente rica é mais rápido e vem pelo alto.
O helicóptero na pista, os curiosos aplaudem.
Médicos, bombeiros, polícia e até voluntário.
Socorreram o casal endinheirado.
O helicóptero decola, e agora já era.
O menino tá morto mesmo, e morto espera.

Elicí e o helicóptero levanta vôo.
Elicí ainda hoje eu ouço.


Ferréz/Edvaldo Quirino

6 comentários:

Poesia! disse...

olá!
sou o adm. do sarau o fogo anda comigo e gostaria de fechar uma parceria com vc...
visite: thefirewalkswithme.blogspot.com
contato:
ofogoandacomigo@yahoo.com.br

OBRIGADO

[denise abramo] disse...

elicí somos todos nós.

::

Elenilson Nascimento disse...

Caro Ferrez, acabei de postar novamente um texto sobre o livro Literatura Marginal. Manda sinal de fumaça: http://orebate-elenilsonnascimento.blogspot.com/

Mais sobre o Clickando disse...

Olá Férrez,
Tudo bem?
Estou no último ano de jornalismo na UNESP-Bauru e como trabalho de conclusão de curso estou desenvolvendo um projeto de revista de cultura ligado às questões sociais, tentando mostrar como a cultura é um ótimo meio transformador da sociedade.
Sou aluna e orientanda do Professor Mauro Ventura, que participou de uma banca de TCC sobre sua obra, escrita pelo Thiago, da Cásper Líbero.
Gostaria de saber se teria disponibilidade para me dar uma entrevista sobre sua trajetória, falando um pouco sobre projetos sociais e culturais. Seria importantíssimo para mim.
Estarei em São Paulo esse mês, entre os dias 10 e 19 de julho.
Aguardo resposta e agradeço desde já a atenção.

Abraços

Gabriela Virdes.
gabrielavirdes@gmail.com

Robson Canto disse...

Um motivo pra escrever...!

É quente Ferréz! Eu fiquei um tempo sem escrever e quase que eu cometo um homicídio ou até mesmo suicídio. Eu mesmo já não suportava a minha chatice e nervosismo, faltou muito pouco pra eu agredir alguém ou ser agredido.
Sei-la parecia que me faltava algo um braço, uma perna, um olho ou uma mão. Cê sabe como é né?
Escrever (mesmo eu achando que não sou bom nisso), me fez uma falta do caraí!
Certo dia me perguntaram por que eu escrevo, na hora eu não tinha muita certeza da resposta mas hoje eu sei perfeitamente por que escrevo. Sem querer plagiar mas já plagiando o Marcelino Freire, eu escrevo pra me “vingar” e ofender os vermes que acham que o sol gira entorno do umbigo deles. Tipinhos como a recalcado do advogado que abriu um inquérito contra tu.
“Vermes que só faz peso na terra” agora “vai pega o celular e pede pano prús gambé”

Robson Assis disse...

Eles são sempre covardes e "inocentes"