Blog do escritor Ferréz

ATENÇÃO ZONA SUL

Salve Lokos, Atenção rapa, surgiu uma oportunidade chapada para jovens de 14 a 21, de ambos os sexos.
são vários cursos que serão dados na Casa do Zezinho, gratuitamente.
Se você é daqueles que vivia reclamando das falta de orportunidade, agora num tem mais motivo, e tem mais, se fizer o curso completo, já sai indicado para o trabalho numa das empresas que estão coligadas a Casa do Zezinho.
Tem Edicão de Video, computação, fotografia e mais um monte de coisa, toma nota ai:
Rua Anália Dolácio Albino, 30/77 Parque Maria Helena 5819-4481

e boa sorte na caminhada.

2 comentários:

Djalma Oliveira disse...

Ferréz, leio o seu blog regularmente (às vezes deixo um comentário), e acompanho seu trabalho desde que escrevia para a "Caros Amigos", além de ter lido o seu livro "Capão Pecado". Porém, este não é um comentário para ser publicado, é apenas um contato (visto que não possuo outro meio de contatá-lo). Já deixei meu blog "lincado" algumas vezes neste espaço, e não sei se você o conhece. Escrevi um livro e tento publicá-lo há um ano, mas, o mercado editorial é fechado para quem não está na mídia. Gostaria de saber quem edita os livros da "literatura marginal, como o do Preto Ghoez, e da possibilidade do meu original ser lido. Queria saber "sem massagem", se rola um preconceito por causa da minha ex-profissão. O livro é bem escrito, e tenho "algo a dizer" sobre o sistema carcerário, por quem esteve dos dois lados. Fui convidado para umas palestras em escolas públicas sobre o que escrevo no meu blog. Desculpe a carta irmão, mas tenho que tentar tudo, a caminhada tá foda. Um abraço!

Artistas de Itararé, Cidade Poema disse...

Capão Redondo – Seqüela Social de uma Sampa Panamérica de Áfricas Utópicas

“Pátria amada
Pátria minha
Pátria nada
Patriazinha...”

(Vinicius de Morais)



São Paulo pan-capitalista selvagem “da força da grana que ergue e destrói coisas belas”, com tantos contrastes sociais, com suas riquezas injustas e seus lucros impunes (e propriedades roubos), é uma megalópole que tem a beleza arquitetônica de seus totens capitalistas em estéticas exuberantes, suas largas e superfaturadas avenidas, e o peso de ser maior em grana corrente do que muitos países do eixo sul da América Pobre, mas, também, paradoxalmente tem seus subterrâneos sociais, sua periferia entregue ao deus-dará, e, nesse contexto, o bairro do Capão Redondo berra sua dor entre a marginália sociedade anônima por atacado, mais os seus artistas malditos e, no caso, seus escritores depurando a sangria desatada do meio. Periga ver.

Quando a Revista Caros Amigos começou a abrir espaço para os gritos das ruas da amargura, uns e outros se pontuaram com suas marotices letrais, tendo se destacado no meio o escritor Ferréz. O Jornal da Tarde escreve: “Capão Redondo é um cartão-postal do fim do mundo”. A Revista Época diz que os livros do autor que saiu da periferia, circularam de mão em mão e chegaram à classe média. É preciso ler a dor dos outros, nosotros?

Pois é: nesse mundo abandonado por Deus e por muito tempo – na ausência do nefasto estado neoliberal pseudomoderno de ocasião - protegido pelo narcotráfico e seus ramos violentos impera a miséria, a violência; drogas e mortes. Um enfoque social da Sampa em suas seqüelas. Narrativa única, original, recortada, Ferréz destila realidades duras, ódio, repugnação, ironias, numa narrativa seca, como jorro neural, tipo contação da dor dos fracos e oprimidos, onde ele luta para se dizer presente e dar seus gritos de guerra nessa literatura nova pro gosto paulista-brasileiro do Brasil que não merece o Brasil. Dá o que pensar. Não contracultura, mas, antes, uma chance de mostrar esse resumão social (e triste) do Brasil que é Sampa, com suas vísceras expostas entre abandonos sociais, favelas, cortiços, palafitas e, impunidades. E vai por aí o banzo tropical urbanizado. Terra tombada. Amores vãos. Pobre também ama, se apaixona, tem consciência de que lado está entre tantos muros onde se vê estrangeiro em seu próprio país.

O autor resiste nas palavras, malandramente lamentando sem piedade. Mas traz e tem um horror contido. Nordestinos, analfabetos, gente humilde que, sim, ama também, gera filhotes, produz, consome o emergencial, mas não tem lá seu poder aquisitivo pontuado como um dígito, ou, pra citar o bad-boy Cazuza, antes de ser o cartão de crédito uma navalha, eles têm um poder não usado, como diz aquele samba antigo, ai se o miserê dos morros descesse ao asfalto e ganhasse a cidade, rompendo viadutos, vitrines, não beijando paredes, mas cobrando a sua cota dos brancos, querendo dividir a sua cota de negros. No lado pobre de Sampa, Capão Redondo não recebe turista emperiquitado, nos crimes não se pontua herói nem cheira a romantismo, mas Ferréz escreve e usa a linguagem do meio, as situações degradantes do meio, para dizer o que sabe, o que saca, a que veio. A infelicidade também é um revólver quente, mano.

Ferréz começou no Noticias Populares. Um humano mostrando as veias abertas de seu meio. Histórias reais doem? Contesta e critica o sistema, o Capão Redondo tá na mídia, morou? Desempregos (o “sucesso” do Plano Real), desenganos (inconsciência dos podres poderes), desassossegos generalizados, as quebradas pondo as caras pra fora e os manos se dizendo resistentes, de alguma maneira. Literatura de resistência. A Feira do Rolo. Os terrenos baldios querem dizer alguma coisa. O lucro com a fome.

Um hip hop letral? Rapas letrais? Dentro do estado de direito – direito de quê cara pálida? – Ferréz em seu brado retumbante traz a linguagem rueira no costado de quem sofreu e regurgita, a esperança desmiolada, as rupturas inférteis (como sistema) e, apontando as suas cetras de palavreiros, destila, derrama, expõe seu meio e os caroços sociais de seu meio, os amalgamados dos filhos deste solo sem haver mães gentil? Pátria nada? Nação zumbi? Por aí.

Mestiços, pardos, negros, quase pretos, brasileirinhos e seu lugar que é tantos lugares, tantos brasis, tantos becos e guetos; áfricas utópicas de panaméricas túmulo de quase subseres, seqüelas; de tantas sofrências. E a policia atirando, não por e pelo meio, mas contra os despossuídos, a impunidade da policia treinada para matar, não para se integrar, para pensar, então rola injustiça de onde deveria partir proteção. Balas perdidas matando a torto e a direito. A morte ronda, cerceia, fere o Capão Redondo. Ferréz dispara seus torpedos letrais severos numa linguagem de crônica, narrativas cruas. Capão Redondo sangra. Não, não há um tratado de tordesilhas ali, abandono social sem donos. Dezelo social com aproveitadores. Não há divisas e nem fronteiras. Nem proteção e nem bandeiras. Balas perdidas singram os cantões, os despejos como rejeitos sociais. E Ferréz conta as vísceras expostas de um, quase, lugar nenhum, qualquer lugar, portanto.

A Sampa rica e bela da mídia é outra, quase um mundo a parte com o seu quase câncer: a periferia (que não se pode varrer para debaixo do tapete das etiquetas e grifes) em sangria desatada. Os defensores da lei não defendem nada, usam pobres como alvos de mira. Já pensou? Ferréz é um Lampião sem Maria Bonita, ou, antes, Maria Feia é o seu canto, o seu lugar. Um virgulino moderno, urbano, com suas palavras cortadas a facão e sua visão iluminada de horror, feito um fio terra. A fortaleza da desilusão tem o que dizer, e diz. Reginaldo Ferreira da Silva, vulgo Ferréz, elemento que foi peão e hoje é fio desencapado.

Balconista, na sua literatura marginal sabe que ninguém é inocente, que todos são iguais perante a lei na letra morta da lei oficial, mas, alguns são mais iguais. Ele é o bando dos “de menos”. Só que tem o que dizer. E escreve. Vendedor de vassouras, arquivista e chapeiro, aprendeu bem a lição de contestar, de não ficar calado, e assim vai dando seus depoimentos em contos escritos com a mão de quem limpa, assa, registra, feito um peão de obras letrais, entre andaimes de todos os sentidos, nos cafundós onde o Judas perdeu as estribeiras.

Códigos de uma comunidade violenta.

Sim, muita coisa acontecesse nessa contação da realidade que dói, chorumes, máscaras e ratos, aproveitadores. Mas os que mandam estão alheios, fazem o moderno-falso modelo neoliberal, o que piora a situação, nesses contrastes sociais, riquezas injustas, lucros impunes, propriedades roubos. Isso quer dizer alguma coisa como seqüela? . Quem que quer saber desnudar isso? Ferréz quer. Olho nele. Ele é um perigo para o sistema.

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Professor Poeta Silas Correa Leite, de Itararé-SP – Autor de Campo de Trigo Com Corvos, Contos, Editora Design
E-mail: poesilas@terra.com.br
Blogues: www.ports-lapsos.zip.net
www.campodetrigocomcorvos.zip.net


Box: Livro Capão Redondo
Autor Ferréz, Editora Objetiva, 2005