Blog do escritor Ferréz

Sua alma caminha em liberdade

Ratão.

Você ficou espantado quando o apelido pegou, numa brincadeira que meu irmão fez, e pronto, virou Ratão mesmo, tudo por causa do nariz, o mesmo que você ultimamente tava falando em operar, agente num ia agüentar ver você mexer nele, era a sua cara.
Já alguns anos, não éramos mais amigos, éramos irmãos.
Foi com você que montei meu primeiro grupo, agente ouvia Chico Science o dia todo e no final, apesar de querer ter guitarra, bateria e a percussão, montamos um de rap, que só precisava de um caderno para escrever as letras e de uma base.
Agente foi crescendo e o gosto pela música aumentando, e você viu eu entrar no grupo do Carlinhos, o Periferia Ponto C, e lá estava você em todos os ensaios, depois de algum tempo eu sai do grupo e entrei no Outraversão, você me acompanhou e ficamos juntos de novo, foi nessa época que nasceu sua filha, e você me deu para batizar, é engraçado né, a família é agente que faz, porque você não convivia com sua família em nada, assim como eu tenho mais amigo na rua do que em casa.
Deu pra perceber isso nesses dias, eles não sabiam nada de você.
Fizemos vários shows, e o maior deles foi no Palácio onde abrimos para o Realidade Cruel, você escreveu no jornal da escola em dezembro de 2000 e depois você junto com a sua turma me convidou para dar uma palestra lá, fiquei orgulhoso quando esses dias reparei que você tinha uns livros do João Antônio, perguntei deles e você disse, “cê falou que era bom, e eu comprei” eu até peguei um emprestado, mas não vou poder mais devolver.
A real é que o mundo do crime te cativou né, e eu entendo, sempre intendi, você saia nas fitas e depois me contava, uma vez falou assim: tem gente pra tudo, uns vai pra ação, outros escreve sobre ela.
E é real, suas experiências nessa vida, e o que passei a seu lado me ensinaram muito, e o Manual Prático do Ódio foi um prova disso, pois nele o Régis é inspiradão em você.
E no Capão Pecado, você tá no livro todo.
Nossa amizade sempre foi um bagulho louco, você na minha frente falando das fitas que fez, e depois eu lendo os trechos dos livros novos.
No começo do cd, você praticamente desistiu e eu tive que prosseguir sozinho, mas mesmo assim você ia em todos os lançamentos, não faltou em nenhum, desde o primeiro.
Agente era o mais diferente um do outro e mesmo assim éramos idênticos.
Quando gravamos a Judas, e depois começamos a divulgar a música, muita gente elogiou seu jeito de cantar, mas parecia que você achava que não nasceu pra isso.
Sua filha a Géssica foi crescendo, e vieram mais dois filhos o Akin e o Dener, um você deu um nome de guerreiro e o outro homenageou o jogador que tanto gostava.
Sabe Alex, as vezes a sete da manhã você passava aqui em casa pra tomar café e eu ficava fudido com você por me acordar cedo, e quando você veio morar comigo pois estava em guerra com os pé de pato, foi uma das épocas que mais me diverti, dividir miojo era rotina pra nóis.
Finalmente você alugou uma casa, e como era caprichoso montou toda ela com móveis brancos na cozinha, tinha um home teater prata, assim como a tv, e sua sala parecia um disco voador.
Dia sim, dia não eu passava lá pra gente assistir os grupos de rap, quando eu não comprava um dvd você tinha comprado.
O mais louco era a caixinha de chá, que você comprou, “Twinings of london”, agente tomava aquele chá caro a alguns metros do córrego.
Quando você tirava as coisas na internet, já me ligava, “vem ver o que eu peguei dessa vez”, e o presente mais louco que meu deu foi uns 20 livros que você avia pego num assalto a transportadora.
Nunca fumou né Ratão, nunca usou nenhum tipo de droga, e isso você trouxe do Hip-Hop ideologicamente correto, assim como a auto estima que sempre estava a seu lado.
Agente comprava costela na padaria funchalense e ia pra sua casa comer com pão, era a coisa mais gostosa de se fazer.
Esses dias inventamos uma brincadeira, agente chamava no portão e quando a pessoa atendia, entrava uma pá de amigo nosso ao mesmo tempo e comia tudo que tinha na casa, fiz isso com você, junto com o Amaral, o Cacá e o Zóião, e você ficou de fazer na minha casa.
Esses dias juntei os meninos do Negredo, o Carlinhos e mais uns cindo da favelinha, fomos todos pra sua casa, nós iamos comer tudo, mas você por sorte sua não estava.
Bom, o que posso dizer mais...que você comprou a moto que tanto queria, a Falcon prata e que todo mundo pagava um pau pra você, pois você era diferente dos pé de breque daqui, você era bandido beneficente, ou seja fazia a fita e não atrasava o lado de ninguém, que nem aquele dia da carreta que você interceptou e não coube no galpão, no final das contas você liberou ela, e o maninho do seu lado perguntou. – cê tá loco, porque agente num pega pelo menos uns dvd, ou algumas coisas? E você disse com muita firmeza. – cê acha que se esse tiozinho chegar na firma dele dizendo que agente roubou só algumas coisas eles vão acreditar? Que nada vai é prejudicar ele.
Então meu amigo Alex, ou melhor, meu irmão Ratão, você viu o que está acontecendo comigo esses tempos, o abandono dos amigos, uns fugindo pra se esconder atraz da bíblia, outros indo embora por ganância e outros indo por covardia, desistindo da luta que nós começamos a algum tempo. Nessas horas lembro de uma frase do Dexter, “esses dias me tornei um cara amargo, decepção ao extremo é complicado”.
Esses dias você também tava desolado com essa tal revolução, também né, só vemos bares cheios, nossos amigos se viciando, morte atras de morte, e eu tenho essa mesma dúvida todos os dias, se vale a pena continuar caminhando.
O Zica do pântano, a favelinha Santiago era nossa casa, e foi lá que dois covardes de máscara desceram e te pegaram quando você tinha pago hot-dog pra todo mundo, aquele dia você tava feliz, foi na locadora, alugou um filme, dividiu um misto quente comigo e tomou café com o Nildo, agente riu prá caralho e você falou que ia sair fora pra ver o filme e voltava.
Chegou em casa e arrumou ela todinha né, pegou a moto e passou pelo Tico, depois foi pra viela onde todos crescemos juntos, tava rindo a beça, zuando com a cara do Washington e do Amaral, e deu até conselho pro Zóião.
Mas você sempre soube que inspirava a inveja e ela se manisfestou naquele dia.
Como você faleceu não interessa, o que ficou foi como viveu, com o sorriso na boca até o ultimo minuto, mas o que gostei foi que não correu, pois não devia nada.
Sabe meu irmão, eles mataram sua carne, mas não podem adquirir o respeito que você teve e tem, nem o amor que sentimos por você, cada vez estou mais isolado e esses dias me segurei para não disparar contra mim mesmo e acabar com tudo isso, porque lembrei de você dizendo que agente tem que ser forte, firme e forte.
Zica, seu Zica, obrigado pelos momentos que tivemos juntos, e saiba que esse texto tá sendo escrito porque eu não consigo guardar mais dentro de mim.
Sem investigação, sem debate, passou batido, mas não desapercebido, os verme uma hora se manifesta, por enquanto eu vou fazer o que sei, escrever pra você, tá. Um abraço do seu irmão.

Alex Rodrigues do Santos, era negro, tinha 23 anos e um sonho de ter uma casa própria, ou melhor, um apartamentinho como ele falava.

13 comentários:

Roberto disse...

Li essa história do Ratão na 'Caros Amigos'. Aqui, fiquei mais emocionado ainda com a história. Acabei falando da leitura da 'Caros' no meu blog.

http://www.robertomaxwell.blogger.com.br

Bárbara disse...
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Bárbara disse...

fantástico cara. eu te acompanho também na Caros Amigos, vi a tua entrevista pro Pereio no Canal Brasil e passei a te admirar mais do que antes por ter aquela responsabilidade profética de denunciar as injustiças deste nosso Brasil. estou terminando a faculdade de Jornalismo e editando uma revista e um pequeno vídeo sobre Febem / medidas socioeducativas e essa mulecadinha abandonada do Brasil... queria ver se era possível trocar idéia contigo sobre o assunto: babi.barreto@terra.com.br
fé. contamos com a tua coragem.

arturo disse...
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arturo disse...

Caro Ferrez
Venho acompanhando seus trabalhos e seria redundante elogiá-los frente a aceitação e concretude com que você argumenta.
Precisamos de pessoas que provoquem os meios e mostrem que os açoites que a sociedade brasileira escrava suporta, não é "coisa do diabo" e que "se Deus ajudar, tudo vai dar certo" (fique claro que este comentário não é uma contraposição à igreja). Você, Ferrez, é a representatividade da voz que precisa ser ouvida, e necessita ir além, demonstrando esta mesma representatividade como pessoa política, qual tanto necessitamos.
arturf_silva@terra.com.br

R.Canto disse...

Ai Ferréz manda a indicação de livro firmeza?

Roberto disse...

Ferrez, disse em outro comment que havia comprado numa livraria virtual o seu livro. A livraria não confirmou pq está esgotado. Aqui no Rio não tá rolando de encontrar. Estou indo para SP nos próximos dias, talvez em 1 ou 2 semanas. Queria aproveitar para comprar o livro aí. Há como vc me indicar onde encontrá-lo? Vi no Gordo que o livro terá nova edição pela Objetiva. Vc alterará o livro para a nova edição? Devo esperar a próxima? Bem, de qq forma quero comprar o outro livro, o novo. Um abraço,
RMax

http://www.robertomaxwell.blogger.com.br

Carlão disse...

Caro Ferréz,
Conheço seu trabalho como escritor de longa data, bem antes de a mídia ter se rendido ao seu discurso ou ao do MV Bill. Naquela época, quando procurei o Capão Pecado na livraria Siciliano do Shopping SP Market, me disseram que haviam comprado o seu livro, mas depois que descobriram se tratar de um ex-presidiário, assim que acabou a primeira remessa não o compraram mais. Sabia disso? Claro que hoje as coisas já devem estar “normalizadas” por lá. Renderam-se.
Estou estudando para me tornar professor, mas antes mesmo de ter entrado em sala de aula, tenho conseguido trazer muita gente para a literatura através do Capão Pecado. Lá no cartório do Capão, onde trabalho, quase todos do meu setor já leram o livro, que serviu de porta de entrada para os demais – parafraseando você: a bactéria se instalou no hospedeiro, manja? – só para você ter idéia, todo mundo já conhece Dostoievski, e o meu Crime e Castigo ta surrado de tanto ser emprestado pro pessoal. Já tem até neguinho falando em revolução cultural depois de visitar o seu blog.
Quero te agradecer por me encorajar a cada vez mais entrar nas salas de aula do nosso bairro e por estar transformando a rotina alienante de muitos.
Incentivado pelo desejo de escrever, mas por não ter onde publicar (afinal a gente escreve para ser lido), segui o exemplo do seu blog. Fica aqui o convite para você dar uma lida: http://carlaoladob.blogspot.com
Abraços e boa sorte pra nós todos.

Japoneis disse...

Ai Ferrez. Nao tive a opurtunidade de ler seu livro Capão Pecado, porque nao encontro em nenhuma biblioteca publica da cidade mas quando tive um qualque pretendo compra. Lamento pelo seu truta ai, é foda nao ver mais quem a gente ama mas caminhada continua né ele com certeza ta lado a lado de voce e voce lado a lado dele, carregando seu sorriso, alegria, tristeza o exemplo que ele era pelo que voce citou. Parabens ai mano.To aguardando mais um Literatura Marginal. Fica na paz guerrero.
http://www.5continentes.zip.net

rickaotic disse...

que texto firmeza, parece tirado do fundo da alma, emociona aateh coração de gelo, continua na sua jornada ferrez.

alvarêz dewïzqe disse...

é isso aí.

jamille disse...

e isso eew

jamille disse...

e isso eew